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QUANDO PERDEMOS NOSSA IDENTIDADE

Eu me lembro do dia em que eu abri meu armário e vi todas as minhas roupas resumidas em duas gavetas e dois casacos que não usaria tão cedo.


Eu vinha de um processo de quase três anos em que as coisas que eu acreditava iam sendo derrubadas ao chão.

Começou em 2016 quando o sistema religioso do qual eu vivia desde a minha conversão foi exposto. Descobrir que tudo o que eu tinha feito foi para fazer a obra de homens e menos de Jesus, doeu meu coração demais...porque realmente eu achei que estava fazendo certo.


Era um sistema hierárquico onde todas as decisões que eu tomava deveriam passar pela liderança, porque afinal era se utilizado o versículo, em Romanos 13:


1Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.
2Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.

Foram anos de muita graça, mas também de dor porque eu perdi muita coisa na minha vida (eventos de família) e que me colocaram em dúvida das muitas decisões que foram tomadas na época, mas a única que eu sempre tive certeza foi a do meu marido, porque apesar de todos torcerem o nariz eu recebi o sim diretamente de Deus.

Se você é Cristão, nunca deixe de orar, porque é só ela que nos sustenta contra todo sistema de religiosidade.

O véu foi rasgado, acredite! Deus ainda pode falar diretamente com você.

Quando sai desse lugar, a minha mente estava a condicionada a necessidade de agradar pessoas porque eu precisava o sim delas, a aprovação.

Ainda que não nos era obrigatória toda liturgia de antes, eu não sabia viver em liberdade, não sabia dizer não.

Em 2018 eu realizei um sonho desde criança que era ter a minha própria loja, abri o Atelier Fernanda Carvalho onde a gente confeccionava vestidos de noiva. Desde o meu casamento eu tinha entrado nessa de fazer vestido de noivas e madrinhas, não era muito o que eu queria, mas era onde tinha demanda. E na minha cabeça eu achava que ali seria o ponto de virada da minha vida, meu próprio negócio.

A loja em questão tinha um peso emocional muito grande pra mim, porque na época ela estava abandonada (os donos estavam em outro país) e eu brincava ali quando criança junto com a filha dos proprietários. Eu comecei o atelier na casa da minha mãe, no meu antigo quarto e me incomodava receber as pessoas ali e achava que estava na hora de ir para um lugar novo, e a loja pra mim era um excelente lugar. Perto dos meus pais (a lanchonete deles ficava de frente a loja), e ela estava abandonada, ficava ali no centro de Santo André e tinha uma vitrine linda para expor meus vestidos.

Um pequeno detalhe era que eu já estava gravida da Anna, ou seja, tinha um prazo para abrir a loja, porque imagina eu ficar em casa pra cuidar da minha filha!? Jamais!!! Eu queria trabalhar e conquistar tudo o que sempre planejei desde os meus 15 anos.


Eu gravida da Anna em 2018 na loja.

A reforma da loja foi um perrengue só. Fiz meu marido fazer empréstimo para abrir a loja, porque ela estava bem judiada de anos fechada.

Resumindo, inauguramos a loja em novembro de 2018 faltando um mês para a Anna nascer. Eu tinha pessoas maravilhosas que me ajudaram nesse processo, Dona Leda confeccionava os vestidos e a Vanessa também confeccionava e ficou o período do meu resguarde na loja.

A loja não se pagava e era uma agonia pagar aluguel todo mês. Final de contrato, decidimos que não iria ficar mais ali e eu não queria desistir.

Mas final de 2019 já exausta, Anna com 10 meses eu orando, o Senhor me pediu pra parar.

Ele me disse que esse tempo já tinha dado na minha vida e que eu iria passar por um processo de maturidade.

Eu tinha um casamento para finalizar na época, vestidos simples e que já tínhamos feito...mas todos deram errado! Só recebia mensagem da noiva chateada com os vestidos das madrinhas. E eu sei de um peso e responsabilidade que é esse dia para uma noiva.

No que pude, eu fiz questão de devolver o dinheiro delas. Não de todas, porque eu nem tinha...de outras nem recebi o restante.

Minhas carroças e reputação (que para mim era muito importante) foram queimadas.

Fechei a loja, não fiquei com dividas altas mas fiquei com algumas e tentei sanar as pessoas que que pude com o dinheiro que tinha.

Quando a loja fechou, eu fiquei sem rumo porque achei de verdade que dali sairia a minha realização profissional. Então foi o meu segundo grande baque.

15 dias depois que tudo isso aconteceu, descobri que estava gravida da Luiza e meus planos na época era colocar a Anna na escolinha e arrumar um trabalho fixo, porque afinal eu tinha que recuperar o dinheiro que foi gasto e ir para o nosso apartamento (meu outro sonho, ter minha casa!)

Anna tinha apenas 10 meses quando descobri a gravidez da Luiza (já com 2 meses de gestação). Eu nem tinha passado pelo ciclo da primeira e ia repetir a segunda, e agora não tinha como, eu teria que ficar em casa.

Veio 2020 né meu povo e ai vocês já sabem. Luiza nasceu no auge da coisa, maio de 2020.

Minhas filhas são preciosas e perfeitas, mas psicologicamente eu estava devastada. Porque meus fundamentos tinham sido abalados e junto com a maternidade então, foi o combo perfeito.

Não era apenas uma, mas duas pessoinhas dependentes de mim. Não sabíamos quando aquele pesadelo de covid ia acabar, não dava pra sair de casa literalmente. Nessa fase ai eu já estava me desfazendo das minhas roupas, porque conforme eu ia desgostando das coisas eu mandava embora. Na minha cabeça eu iria comprar as coisas novas que eu queria.

Mas o dinheiro que entrava era pra pagar a parcela e condomínio do apartamento que nunca chegamos a morar, comprar fralda e leite das meninas. Então o orçamento realmente apertou e quando sobrava eu precisava comprar certo.

Eu comprava o que achava bonito e cabia no bolso, mas ainda não me sentia satisfeita.

E fiz faculdade de moda, desenho de moda...tudo o que tinha relacionado a moda eu fazia, mas não sabia me vestir. Embora eu soubesse que a roupa tinha uma linguagem, eu não entendia os códigos.

Quando eu abri meu armário e vi que estava completamente vazio eu cai em si, foi um choque saber que eu não estava nem sabendo me vestir mais e muito menos comprar roupa pra mim.

Fazer consultoria de moda não é um luxo disponível para todas, fui procurar ler sobre o assunto do estilos e livros na época, até que um dia eu acordei com a ideia (obrigada Deus) de estudar consultoria de imagem.

A formação que eu queria fazer era muitoooo além do que eu podia pagar, na época tinha conseguido pegar a licença maternidade da Luiza e paguei algumas dividas e fiz a formação que dava pra pagar na época pela Belas Artes, online.

Minha cabeça explodiu, porque roupa tem uma linguagem própria e eu não sabia disso. Que tal corte de cabelo tinha um código que somado a uma modelagem de roupa se construía um estilo próprio.


Começo do Meu Armário EDA em 2021, minha primeira foto do perfil profissional com o celular na parede de casa :)

Lendo livros e me aprofundando nessa questão, fui descobrindo que eu precisa de uma roupa que se adequasse ao meu estilo de vida.

Quais o lugares eu ia, como era minha rotina, o que era importante na roupa pra mim naquele momento, naquela fase que eu tava passando.

E foi aí que eu realmente parei pra pensar e assimilar tudo o que eu tava vivendo e tinha vivido.

E descobri que eu estava muito mais preocupado com a opinião das pessoas do que com a minha.

Que eu podia vestir qualquer coisa em casa, mas quando eu ia sair tinha que arrasar, aquela crença de primeiro os outros depois eu.

Os lugares que eu frequentava, já não eram mais onde eu queria estar e junto com a terapia (porque eu já estava com depressão e foi um baque descobrir isso, achando que era só hormonal) descobri que eu tinha perdido o meu direito de fazer escolhas, minha liberdade tinha sido sutilmente tirada.

Descobri que eu tinha perdido a minha identidade.


Foi a escassez do dinheiro, o armário vazio e Deus por trás de tudo que me ensinaram a pensar nas minhas escolhas e o que eu estava fazendo da minha vida e a roupa foi a ponte que me trouxe de volta.


Hoje eu penso a roupa primeiramente pra mim, nos lugares onde eu vou usar. Constantemente eu estou avaliando todo meu contexto, o quanto estou deixando de usar algo por conta da opinião do outro.


É por isso que digo que não quero um look do dia, baseado em um momento mas um armário que me lembre quem eu sou todos os dias, desde o moletom manchado que uso em casa ou o conjunto verde lima para colorir minhas clientes.


Em janeiro de 2023 Jesus me disse que o resultado do meu trabalho é roupa, mas que na verdade eu trabalho com parte da identidade daquela cliente.


Porque pensar em roupa por si só é simples, mas pensar em estilo é pensar em todas as escolhas que a gente faz na vida.


Hoje a minha roupa é um lembrete de quem eu sou todos os dias!


Essa sou eu hoje em construção ainda mas, muito melhor que antes! Fazendo as fotos do Revitaliza Meu Armário com a Flavi :)



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